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LUSOFONIA, DIVERSIDADE E O NOSSO ADAMASTOR

Crónica de João Pedro Romão

Em setembro, entrevistei, pela Jah Moment, um artista brasileiro chamado Vinicius Terra. Um homem apaixonado pela língua portuguesa, como bom rapper que é.  Há quem diga para não se confiar num cozinheiro magro.  Já eu não consigo confiar num rapper que não venere a sua língua.

Não o conhecia, nunca tinha ouvido nada dele.  Fiz um pouco de pesquisa de última hora, tudo muito amador. Todas as perguntas foram genuínas porque eu não sabia a resposta.

A entrevista foi uma dose gigante de informação. Discutimos o álbum dele, que é toda uma homenagem às culturas lusófonas e discutimos Bolsonaro, foi bom.

O que eu não estava à espera era de começar a pensar na lusofonia de maneira diferente… Aliás, não estava sequer à espera de começar a pensar sobre a lusofonia.

Sabia, evidentemente, o que representava e estava ciente da influência que tem na cultura de Portugal continental. Só nunca tinha pensado, por exemplo, porque é que não consumimos música timorense.

Quando penso em lusofonia, penso no que vejo, no que está à minha frente… Penso na sociedade portuguesa.

 
Faço parte de uma geração que cresceu em contacto direto com angolanos, guineenses, cabo-verdianos, santomenses, moçambicanos, indianos, etc. Tornou-se mais complicado parar e pensar na influência das suas culturas na nossa, foi natural crescer num meio onde o Kizomba, por exemplo, era frequente e a sua influência era notável. Não sou fã, de todo, mas conforta-me, de certa forma, saber que já faz parte da nossa cultura. Sotaques e expressões à parte, falamos a mesma língua. Faz sentido!

Miradouro de Santa Catarina em Lisboa - 2019 | Dicas de Lisboa e ...

Recentemente, comecei a trabalhar na Baixa de Lisboa e, ao mesmo tempo, comecei a sentir-me atraído pelo multi-culturalismo da nossa Lisboa.

Uma vez, vi uma senhora de burka a ceder o seu lugar do autocarro, ao pé dos seus filhos, a uma senhora portuguesa que passou a viagem toda a sorrir para os tais pequenotes. Senti-me desconfortável por ter adorado o momento. Devia ser normal.
A verdade é que podíamos injustamente resumir esta diversidade aos “monhés”, “pretos”, “chinocas”, mas não sonhamos que dentro dos “monhés” , por exemplo, lidamos com indivíduos do Bangladesh, da Índia, do Nepal. Todos eles culturalmente diferentes.

O Martim Moniz e o Miradouro do Adamastor – alerto para a ironia do nome do Miradouro – são muito mais diversos do que pensamos.  O facto da nossa cultura poder abraçar outras que fazem parte da nossa sociedade contribuiu, e muito, para esta reflexão.

A última música do álbum de Vinicius Terra chama-se, precisamente, Adamastor.  E deixou-me a pensar no que seria o Adamastor da Lusofonia. Ou da nossa sociedade…

adamastor by cigarro-DA.deviantart.com | Deviantart, Ilustração ...

Regressemos aos Lusíadas

O Adamastor era medo, tormenta, era a barreira que impedia os nossos corajosos navegadores de atingirem o objetivo máximo: a expansão do império português.  Ultrapassar o Cabo da Boa Esperança permitiu-nos chegar a novos horizontes, novas especiarias, novos recursos, novas culturas. Deu-nos o alento para continuarmos a expansão e enriquecer.

Uns belos anos mais tarde, enriquecemos a nossa cultura mas ainda temos um Adamastor na lusofonia, que nos impede de sermos mais unidos. Aliás, temos vários.

Como diz o Vinicius, o Adamastor é uma “associação de golpes” responsável pelo “retrocesso”.

E tem razão.

Comecei a pensar nisto.. Comecei à procura do Adamastor e foi impossível:

– O nosso passado;
– O nosso presente;
– O populismo;
– A desinformação;
– A ignorância;
– O racismo;
– A xenofobia.
– A ganância;
– O nacionalismo fanático;
– A falta de investimento nas pessoas, em muitos países lusófonos;
– Todos os que contribuem para o que acima referi.

Estes são os “monstrengos” que, para mim, impedem a nossa conexão.

A maioria são problemas sociais que, muito devido ao passado, ainda assombram a nossa sociedade. Podíamos ser uma super potência cultural porque temos matéria-prima para o ser, mas ainda não estamos mentalmente preparados. Falta aprender com os erros do passado e aceitarmos-nos uns aos outros.

Superar estas tormentas, é, certamente, o caminho para a união cultural dos países lusófonos e para uma sociedade saudável.

Apesar de tudo, não considero Portugal um país racista ou xenófobo, até me orgulha que recebamos imigrantes de vários países, mesmo que não sejam ex-colónias. Acho que estamos na rota certa. Mas ainda há muito para navegar. Há muitos “versos no Atlântico” que ainda não chegaram ao seu destino.
A todos os que leram este artigo, desafio-vos a pensar no que é o Adamastor do património cultural lusófono, nos dias de hoje, independentemente do vosso país de origem ou do país onde vivem.

Consumam a música, a literatura, todos os tipos de arte lusófona que vos interessam.

Podem começar pelo Vinicios que ele merece.

E depois, quem sabe, pela música timorense.

Juntos pela lusofonia,
João Pedro Romão
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